Para muitos gravadores, o momento de levantar a estampa é quase sagrado. Entalhou, entintou, respirou fundo — e agora tudo depende do papel que tem debaixo das mãos. A escolha errada pode turvar os traços, borrar a tinta ou deixar-lhe um resultado que nem se aproxima do que a matriz tinha para dar. O papel certo, pelo contrário, faz a estampa cantar.
Há anos que imprimimos matrizes de linóleo à mão, e a escolha do papel é um daqueles temas a que voltamos vezes sem conta — tanto no nosso ateliê como nas perguntas que a comunidade nos envia. Por isso decidimos pôr tudo por escrito, como deve ser.
Este é o nosso guia prático para escolher papel para imprimir matrizes de linóleo à mão. Quer esfregue com uma colher de pau, quer use o nosso baren de madeira para uma cobertura ampla e uniforme, ou o nosso baren de vidro para trabalho de detalhe, o papel que escolher molda o resultado tanto quanto as ferramentas. E se passou da impressão manual para uma das nossas prensas, da compacta prensa de linóleo A5 à prensa têxtil A2, já sabe que a escolha do papel também muda com o método.
O que ter em conta ao escolher papel para linogravura manual
Não existe um papel perfeito. Cada gravador desenvolve preferências ao longo do tempo, moldadas pelo estilo de trabalho, pelas tintas usadas e pelo acabamento que procura. Ainda assim, há um punhado de propriedades que vale a pena perceber antes de comprar.
Gramagem — o peso conta mais do que julga
A gramagem indica gramas por metro quadrado e é a medida padrão do peso do papel na gravura. Para imprimir linóleo à mão, o intervalo útil situa-se sensivelmente entre 30 e 120 gsm.
- Papéis leves (30–60 gsm) — normalmente papéis japoneses ou asiáticos, como o washi ou as variedades de kozo. Recebem a tinta lindamente e perdoam algumas falhas sob o baren, mas exigem mão cuidadosa e firme.
- Papéis médios (70–100 gsm) — o ponto ideal para a maior parte da impressão manual. Suficientemente firmes para manusear sem stress, suficientemente leves para uma boa transferência de tinta sem pressão excessiva.
- Papéis mais grossos (100–120 gsm) — muitas vezes papéis ocidentais tradicionais de gravura. São agradáveis de trabalhar e seguram bem o detalhe, mas exigem pressão mais constante ao esfregar à mão.
Acima dos 120 gsm, o papel funciona geralmente melhor em prensa — algo que a nossa prensa A3 e a prensa A4 fazem com facilidade. Ao imprimir à mão, o papel mais grosso tem maior probabilidade de dar resultados irregulares, a não ser que a sua técnica seja muito controlada.
Textura da superfície: lisa, granulada ou algures no meio
A superfície do papel descreve-se como lisa (prensada a quente), ligeiramente texturada (prensada a frio) ou rugosa. Na linogravura, uma superfície lisa a ligeiramente texturada funciona geralmente melhor — permite que o seu rolo de tinta transfira a tinta da matriz para o papel de forma limpa, sem que a textura da folha compita com a textura do entalhe.
O papel sem ácido não é opcional
Se está a fazer estampas para durar — para emoldurar, para vender, para oferecer — use papel sem ácido. O papel ácido amarelece e degrada-se com o tempo. A maioria dos papéis de gravura de qualidade é isenta de ácido por defeito, mas vale sempre a pena confirmar. O rótulo costuma indicar acid-free, pH neutro ou arquivístico.
Formato e tamanho do papel
Faça corresponder o papel à matriz e ao seu espaço de trabalho. Deixe margem suficiente à volta da imagem, para que o papel assente plano e não enrole durante a impressão. Se estiver a usar uma placa de linóleo cortada num tamanho específico, planeie o tamanho do papel antes de começar a entalhar.
Cor: branco, natural ou outra coisa?
A maioria dos gravadores opta por branco, mas os papéis naturais ou de branco quebrado podem acrescentar um calor que o branco frio não oferece. Os papéis japoneses de tom creme dão às estampas uma qualidade intemporal e artesanal, que assenta bem em temas botânicos, figurativos e decorativos.
Papéis que recomendamos para imprimir linóleo à mão
Estes são papéis que testámos no nosso próprio ateliê, com os nossos barens, rolos e a tinta Renesans H2Oil.
Kitakata — cerca de 30 gsm
O Kitakata é um papel japonês de kozo e um dos nossos preferidos para impressão manual. É muito leve, o que faz com que assente bem sobre a matriz e recolha a tinta com pressão mínima. Os resultados são muitas vezes de uma suavidade bonita — expressivos e orgânicos.
Funciona bem para: entalhes marcados e médios, edições, aplicações de chine-collé
Cuidado com: linhas muito finas — pode não perdoar se o papel se deslocar a meio da esfrega
Gramagem: ~30
Awagami Mingeishi — cerca de 45 gsm
O Awagami Mingeishi é um pouco mais pesado do que o Kitakata e um dos papéis mais versáteis que encontrámos para linogravura à mão. A superfície fibrosa dá às estampas uma qualidade maravilhosa de impressão manual. Combina especialmente bem com a nossa tinta Renesans H2Oil.
Funciona bem para: a maioria dos temas, edições, entalhes finos e médios
Cuidado com: aplicações muito carregadas de tinta — satura depressa
Gramagem: ~45
Fabriano Rosaspina — 60–80 gsm
O Fabriano Rosaspina é um papel italiano com longa história na gravura. É uma folha macia, de tom ligeiramente quente, com uma superfície aveludada que funciona excecionalmente bem na impressão manual com o nosso baren de madeira.
Funciona bem para: trabalho figurativo, imagens atmosféricas, edições de arte
Cuidado com: borrões de tinta se trabalhar demasiado devagar
Gramagem: 60–80
Hahnemühle Woodstock — 100 gsm
O Hahnemühle Woodstock é um papel alemão de tom quente e natural e textura ligeiramente rugosa. Aplicar a tinta de forma uniforme com o nosso rolo de tinta de 18 cm antes de imprimir ajuda a garantir cobertura total neste papel.
Funciona bem para: trabalho gráfico e tipográfico, imagens marcadas, fanzines
Cuidado com: o detalhe fino — a textura quebra as linhas muito finas
Gramagem: 100
Rives BFK — 115–250 gsm
O Rives BFK é praticamente um padrão na gravura artística. As gramagens mais leves (à volta de 115 gsm) adaptam-se bem à impressão manual com o nosso baren de vidro; as versões mais pesadas assentam melhor na nossa prensa A3 ou prensa A4.
Funciona bem para: edições de arte, estampas de exposição
Gramagem: 115–250 (use 115 para impressão manual)
Papel de gravura Strathmore 300 — 120 gsm
O Strathmore 300 é um papel de gravura acessível e fácil de encontrar, que rende bem acima do seu preço. Passar a tinta com o nosso rolo de 6 cm dá cobertura precisa em matrizes mais pequenas neste papel.
Funciona bem para: provas, trabalho escolar, edições em que o custo conta
Gramagem: 120
Impressão manual vs. impressão em prensa — a escolha do papel muda?
Muda — mas os papéis mais leves são muitas vezes a melhor escolha para os dois métodos.
Ao imprimir à mão, os papéis mais leves exigem menos pressão e produzem em geral uma transferência de tinta mais fiável. Ao usar uma prensa — seja a nossa prensa A5, prensa A4, prensa A3 ou prensa têxtil A2 — a pressão mecânica uniforme permite imprimir também em papéis mais grossos.
Dito isto, os papéis mais leves captam muitas vezes o detalhe com maior facilidade e exigem menos pressão para uma estampa limpa, mesmo em prensa. Uma prensa alarga as suas opções, mas não faz necessariamente do papel mais grosso a melhor escolha.
Uma nota sobre provas e estampas finais
Antes de comprometer uma bela folha de Fabriano Rosaspina ou de BFK, faça uma prova num papel japonês leve. Coloque um pedaço de feltro por baixo do papel quando imprimir à mão — dá uma base macia e uniforme que ajuda a tinta a passar de forma mais homogénea. Uma prova não é uma estampa falhada: é a conversa antes da última palavra.
Onde comprar
A maioria destes papéis está disponível em fornecedores especializados de gravura. Na Europa, procure a Intaglio Printmaker, a Cass Art ou o seu fornecedor de material de belas-artes local. Para tudo o resto — barens, rolos, tintas e feltros — a nossa coleção completa cobre o essencial.
Uma última ideia
O papel não é um pormenor de última hora na gravura. É metade da conversa entre si e a sua matriz. Comece com uma ou duas folhas de algo novo, faça uma prova e veja como se comporta. Não há nada que substitua pegar no papel com as próprias mãos.
Se tiver dúvidas sobre como combinar papel com ferramentas específicas, encontre-nos no Instagram ou envie-nos uma mensagem. Imprimir é um ritual, e nós estamos aqui para tudo o que ele envolve.



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1 comentário
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